Coproduto do etanol de milho, rico em proteína e energia, ganha espaço na alimentação animal; expansão das biorrefinarias e da produção de milho no Nordeste pode ampliar a oferta regional para bovinos, aves e suínos.
A expansão do etanol de milho está criando um novo mercado dentro do agronegócio brasileiro. O DDG (Dried Distillers Grains), ou grãos secos de destilaria, coproduto obtido durante o processamento do milho para produção de etanol, pode superar 15 milhões de toneladas anuais até 2030, segundo projeção da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
O crescimento acompanha a expansão das biorrefinarias de milho no país e abre uma nova frente para a indústria de nutrição animal. Rico em proteína, fibras e energia, o DDG é utilizado na alimentação de bovinos, aves e suínos e vem ganhando espaço nas estratégias de formulação de dietas.
Do milho ao etanol , e também à alimentação animal
O DDG surge a partir dos componentes do milho que permanecem após a fermentação e a destilação do amido para produção de etanol. O processamento transforma o cereal em diferentes produtos, entre eles o biocombustível, óleo e os grãos de destilaria destinados à nutrição animal.
De acordo com dados técnicos do setor, uma tonelada de milho pode resultar, em média, em algumas centenas de quilos de DDG, dependendo da tecnologia e da configuração da indústria. O Ministério de Minas e Energia aponta rendimento na ordem de 280 kg de DDGS por tonelada de milho processado.
Na alimentação animal, o interesse está justamente na concentração de nutrientes que permanecem no coproduto. O DDG pode ser utilizado como fonte de proteína e energia, mas sua inclusão precisa considerar a composição da dieta e as exigências de cada categoria animal. Especialistas alertam que o produto não deve ser tratado simplesmente como substituto direto do milho ou utilizado isoladamente na alimentação.
Uma cadeia que também avança no Nordeste
Embora a indústria de etanol de milho ainda esteja fortemente concentrada no Centro-Oeste, o movimento de expansão já chegou ao Nordeste.
Estudo do Banco do Nordeste aponta que a região respondeu por 5,4% da produção nacional de etanol na safra 2025/26, enquanto a produção total de etanol nordestina cresceu 13,5%. O levantamento destaca especialmente Maranhão e Bahia, onde a instalação de grandes biorrefinarias de etanol de milho e/ou sorgo vem alterando a dinâmica regional.
A expansão também tem reflexos sobre a logística do milho. Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Conab, o crescimento das indústrias de etanol de milho na Bahia e no Maranhão já influencia o fluxo do cereal produzido no MATOPIBA, reduzindo parte do volume anteriormente destinado à exportação pelo Porto de Itaqui.
É nesse cenário que o DDG ganha relevância para o Nordeste: além de representar uma nova fonte de valor para o milho processado, o coproduto pode permanecer na região ou ser direcionado para outros mercados consumidores de proteína animal.
E Pernambuco?
Pernambuco ainda não aparece entre os principais polos nordestinos de produção de etanol de milho, mas possui um mercado pecuário que ajuda a explicar por que o avanço do DDG interessa ao estado.
A PPM 2025, com dados referentes a 2024, colocou Pernambuco entre os principais produtores de leite do país, com cerca de 1,46 bilhão de litros, equivalentes a aproximadamente 4,1% da produção brasileira.
Dentro do estado, a concentração é ainda mais evidente. Itaíba produziu 126 milhões de litros de leite em 2024, seguida por Buíque, com 102 milhões, e Pedra, com 93 milhões. Juntos, os três municípios responderam por aproximadamente 321 milhões de litros, cerca de 22% da produção pernambucana.
Para uma cadeia dessa dimensão, qualquer mudança na disponibilidade e nos preços dos ingredientes utilizados na alimentação do rebanho merece atenção.
O DDG pode entrar justamente nessa equação como uma fonte alternativa de proteína e energia para dietas formuladas para bovinos, inclusive vacas leiteiras. Estudos e experiências comerciais já avaliam sua utilização na substituição parcial de ingredientes proteicos tradicionais, como o farelo de soja, desde que a dieta seja corretamente balanceada.
O que pode mudar até 2030
A projeção de mais de 15 milhões de toneladas de DDG até o fim da década representa uma mudança importante na escala dessa cadeia. A Datagro estima que o Brasil possa chegar a cerca de 63 usinas de etanol de milho até 2029, processando 57,4 milhões de toneladas de milho e gerando aproximadamente 15 milhões de toneladas de DDG.
Ao mesmo tempo, o consumo doméstico também tende a crescer, puxado pela bovinocultura de corte e leite e pela suinocultura. A expansão da oferta coloca o DDG diante de dois mercados: o consumidor brasileiro de ração e o mercado internacional.
A abertura do mercado chinês para o DDGS brasileiro, em 2025, já começou a alterar esse cenário. Até junho de 2026, a China havia importado 262,1 mil toneladas do produto brasileiro, tornando-se o principal destino das exportações no período.
Para o Nordeste, o movimento merece acompanhamento de perto. A região passa a reunir, ao mesmo tempo, maior produção de milho e novas plantas de processamento, enquanto mantém importantes cadeias consumidoras de proteína animal.
No caso de Pernambuco, o impacto pode ser especialmente relevante para a pecuária leiteira. A evolução do DDG pode representar uma nova alternativa para formulação de dietas e, dependendo da oferta, da logística e dos preços, influenciar a composição dos custos de alimentação do rebanho.
Mais do que um coproduto do etanol, o DDG começa a ocupar espaço próprio dentro da cadeia do milho, conectando produção de grãos, biocombustíveis, nutrição animal e pecuária.
Com informações do Site Canal Rural e adaptações da equipe Pingos de Leite