Com 3.335 litros por vaca ao ano, estado supera a média nacional e se destaca mesmo com um dos menores plantéis de vacas ordenhadas da região; organização da produção e eficiência do rebanho colocam Sergipe no centro do debate sobre o futuro da pecuária leiteira nordestina
Enquanto o Nordeste amplia sua participação na produção brasileira de leite, um estado chama a atenção por um indicador que vai além do volume total: a produtividade por animal. Sergipe registrou, em 2025, a maior média de produção de leite por vaca do Nordeste, com 3.335 litros ao ano, segundo dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado supera em aproximadamente 33% a média nacional, de 2.498,7 litros por vaca ao ano, e representa mais que o dobro da produtividade média nordestina, estimada em 1.657 litros.
O desempenho ganha relevância diante do tamanho do rebanho sergipano. Com cerca de 210 mil vacas ordenhadas, o estado possui um dos menores plantéis leiteiros da região, mas alcançou uma produção de 701 milhões de litros em 2025, ocupando a quarta posição entre os estados nordestinos em volume produzido.
Os números colocam Sergipe como uma referência para uma discussão estratégica para o agronegócio regional: como ampliar a produção de leite e a renda dos produtores sem depender exclusivamente do crescimento do rebanho?
O que os números de Sergipe revelam?
A diferença entre volume produzido e produtividade ajuda a compreender o desempenho da pecuária leiteira sergipana.
Enquanto estados com rebanhos maiores concentram parte significativa da produção nordestina, Sergipe se destaca pela quantidade média de leite obtida por vaca ao longo do ano.
Em 2025, o estado movimentou R$ 1,73 bilhão em valor da produção de leite. A atividade também apresenta polos municipais expressivos, com destaque para Poço Redondo, Nossa Senhora da Glória e Porto da Folha.
Poço Redondo produziu 130,6 milhões de litros, colocando-se entre os dez maiores municípios produtores de leite do Brasil. Nossa Senhora da Glória registrou 103,4 milhões de litros, enquanto Porto da Folha alcançou 103,2 milhões.
A concentração de volumes expressivos nesses municípios demonstra a importância territorial da atividade para a economia sergipana.
Mas, afinal, qual é o segredo da produtividade de Sergipe?
Os dados da PPM mostram o resultado, mas não permitem atribuí-lo a uma única causa. Para compreender os fatores que sustentam esse desempenho, é necessário observar as condições de produção, a alimentação do rebanho, a genética, o manejo, a assistência técnica e a organização da cadeia leiteira.
O caminho está na eficiência do sistema produtivo
A produtividade leiteira é influenciada por um conjunto de fatores que atuam diretamente sobre o desempenho dos animais e os custos de produção.
Entre os principais estão a qualidade e a regularidade da alimentação, o melhoramento genético, o controle sanitário, o manejo reprodutivo, as condições de conforto animal e a gestão da propriedade.
A disponibilidade de alimentos ao longo do ano é especialmente importante no Nordeste, onde a irregularidade das chuvas pode comprometer a oferta de pastagens e elevar os custos com suplementação.
Nesse cenário, o planejamento alimentar, a conservação de forragens e o uso de estratégias adaptadas às condições climáticas locais podem contribuir para reduzir as oscilações de produção entre os períodos chuvosos e secos.
O melhoramento genético e o manejo adequado também podem elevar o potencial produtivo dos animais. Entretanto, os resultados dependem da combinação entre genética, nutrição, sanidade e condições de criação.
Aumentar a produtividade não significa simplesmente exigir mais leite de cada vaca, mas construir condições para que o animal produza melhor, com saúde e viabilidade econômica.
O exemplo sergipano reforça a importância de investigar quais práticas e estruturas de produção ajudam a explicar os resultados alcançados pelo estado.
Sergipe, Alagoas e Pernambuco se destacam na produtividade
Sergipe não está sozinho entre os estados nordestinos com produtividade elevada.
De acordo com os dados da PPM 2025, Alagoas alcançou 2.445 litros por vaca ao ano, enquanto Pernambuco registrou 2.441 litros. Os dois estados aparecem logo depois de Sergipe no ranking regional.
Os números contrastam com os de outras unidades da região. O Ceará registrou 1.715 litros por vaca ao ano, a Bahia alcançou 1.388 litros e a Paraíba ficou em 1.124 litros.
Maranhão e Piauí apresentaram as menores médias, com 672 e 749 litros por vaca ao ano, respectivamente.
A diferença evidencia que o Nordeste reúne sistemas produtivos bastante distintos. Por isso, o avanço da pecuária leiteira regional depende de soluções adaptadas à realidade de cada território, considerando clima, alimentação, infraestrutura, acesso à assistência técnica e perfil dos produtores.
Pernambuco tem volume expressivo e produtividade próxima da média nacional
Para Pernambuco, os resultados também oferecem elementos importantes para o planejamento da cadeia leiteira.
O estado liderou a produção de leite do Nordeste em 2025, com 1,53 bilhão de litros, crescimento de 4,4% em relação ao ano anterior. O volume correspondeu a aproximadamente 23,1% da produção regional, com valor de produção de R$ 3,29 bilhões.
Com 626 mil vacas ordenhadas, Pernambuco alcançou produtividade média de 2.441 litros por animal ao ano, próxima da média brasileira e cerca de 47% superior à nordestina.
O desempenho reforça o peso da atividade no Agreste pernambucano, especialmente no Agreste Meridional, e evidencia a importância de continuar investindo em eficiência produtiva, alimentação, melhoramento genético e assistência técnica.
A experiência de Sergipe, por sua vez, abre espaço para uma investigação mais aprofundada sobre práticas e modelos de organização capazes de contribuir para o avanço da produtividade nos demais polos leiteiros da região.
Nordeste cresce, mas ainda tem espaço para avançar
Em 2025, o Nordeste produziu aproximadamente 6,6 bilhões de litros de leite, alta de 2,7% em relação a 2024. A região respondeu por cerca de 18% da produção brasileira e movimentou R$ 15,1 bilhões com a atividade.
Ao mesmo tempo, concentrou 27,2% das vacas ordenhadas do país, proporção superior à sua participação no volume produzido.
Essa diferença ajuda a dimensionar o desafio regional: melhorar a produtividade média e transformar o potencial do rebanho em maior produção, competitividade e renda para os produtores.
O crescimento não depende de uma única solução. Exige combinar tecnologia, conhecimento técnico, alimentação adequada, sanidade, genética, gestão e condições de mercado que estimulem os investimentos nas propriedades.
Nesse contexto, Sergipe se destaca por apresentar uma produtividade acima da média brasileira, mesmo com um plantel relativamente pequeno.
Com informações do Movimento Econômico, com base na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025, do IBGE e adaptado pela equipe Pingos de Leite.