Paulo do Carmo Martins

Economista, Mestre e Doutor em economia aplicada. Pesquisador da Embrapa e Professor da FACC/UFJF

O café, o açúcar e a mineração viabilizaram tudo o que importamos de produtos industrializados ao longo dos anos, até o Governo JK. Eram com os dólares da venda desses produtos agrícolas que pagávamos até as latrinas dos nossos banheiros, importadas da Europa.

Os barões do café acumularam o capital usado para, tardiamente, iniciarmos nosso processo de industrialização, no meio do século passado. Isso explica, em grande parte, São Paulo ter saído na frente do Brasil.

No centro de São Paulo tem o famoso prédio do Banespa (hoje farol Santander). Por décadas, foi o arranha-céu mais alto da cidade. Ali, no seu topo, disponível para visitação, você tem uma vista panorâmica de 360 graus da capital. Mas, poucos sabem que, no seu subterrâneo tem o bar do cofre, em que é possível voltar no tempo e tomar um chopp no local que ficou guardada a riqueza do agronegócio, que viabilizou o início de tudo que se vê lá do topo.

Atualmente, agronegócio é visto como produtos de exportação. E, faz sentido. Afinal, o Brasil está entre os primeiros na exportação de açúcar, café, carnes (bovina, frango e suína), celulose, etanol, fumo, milho, soja e suco de laranja. E os lácteos?

Os lácteos nunca são lembrados, apesar do Brasil estar entre os maiores produtores do mundo. Isso ocorre porque eles impactam negativamente a balança comercial brasileira. Importamos mais que exportamos. Mas, e sob outros ângulos, leite e derivados devem continuar a serem vistos como o patinho feio do agronegócio brasileiro?

Celulose é um produto importante para nós. Mas, gera muito pouco emprego e é produzido em somente regiões específicas do Brasil. O suco de laranja também tem pouco impacto nacional, embora seja relevante para as regiões bem delimitadas espacialmente, que produzem e processam este fruto. Etanol está em crescimento, com vários projetos de unidades processadoras em construção. Mas, o impacto de geração de emprego é pequeno.

Um olhar para os grãos, mostra que a produção de soja e de milho cresceu nos últimos vinte anos no Brasil de modo impressionante. O milho surpreende, por já ser possível a obtenção em até três safras em apenas um ano, algo que os produtores e técnicos de outros países não conseguem entender. Além de gerar renda em praticamente todo o Brasil, tem a virtude de ser um produto que viabiliza também o setor de proteína animal no mercado interno. O mesmo pode ser dito para a soja. Todavia, ambos geram mais renda que empregos diretos.

Fumo tem forte impacto na geração de emprego, mas é cultura espacialmente restrita. Já o café e o açúcar, dois produtos presentes ao longo da história econômica brasileira, continuam sendo muito importantes. Mas, ambos vem perdendo vigor na geração de emprego. Sob este aspecto, as carnes suínas e de frango continuam sendo importantes na geração de emprego, enquanto que a de bovinos se destaca pela geração de renda.

E o leite? Ora! De todos os onze produtos citados, o leite ganha de todos em número de empregos diretos permanentes gerados. Além disso, gera empregos no interior do Brasil, até onde não há indústrias e serviços em grande proporção.

Por desconhecimento técnico, além da exportação, é comum ser dada importância ao Valor Bruto da Produção de cada produto, ou seja, ao valor obtido com o produto vendido na porteira, sem beneficiamento. Sob este aspecto, dos onze produtos listados, o leite perde para sete. Mas, e se compararmos o Produto Interno Bruto (PIB) gerado por cada um produto?

O PIB tem uma metodologia única, usada por todos os países do mundo. No cálculo, não está correto somar o valor gerado em cada elo da cadeia. Portanto, para calculá-lo, exige conhecimento técnico. Pois, ao gerar um PIB anual de R$ 186 bilhões, leite e derivados conseguem distribuir estes recursos em todo o território nacional, para múltiplos segmentos que estão antes e depois da porteira. E, ao compararmos o seu PIB com o PIB dos onze produtos citados, os lácteos perdem somente para soja, milho e carne bovina.

* Publicado originalmente em Revista Indústria de Laticínios

Imagem destacada – reprodução Canal Rural