Com produção anual de 61,4 milhões de litros de leite, município pernambucano reúne milhares de produtores, 64 pequenos laticínios e um rebanho de mais de 76 mil bovinos
Quando se fala em desenvolvimento econômico no Sertão do Araripe pernambucano, a atividade gesseira costuma ocupar o centro das atenções. Mas, além da riqueza que vem do subsolo, outra cadeia produtiva vem ganhando força na região: a pecuária leiteira.
Em Bodocó, a produção de leite se consolidou como uma das principais atividades econômicas do município. De acordo com levantamento da Secretaria Municipal de Agricultura, são 61,4 milhões de litros produzidos por ano, volume que movimenta a economia local e contribui para a geração de aproximadamente 4 mil empregos diretos e indiretos.
A atividade também vem avançando na agregação de valor. Segundo os dados municipais, Bodocó conta com 64 pequenos laticínios, distribuídos entre a zona rural e a área urbana, responsáveis pela fabricação de produtos como queijos, doces de leite e iogurtes comercializados em mercados da região.
Produção atrai compradores de outros estados
O volume produzido tem despertado o interesse de compradores de fora do município, que buscam a produção leiteira de Bodocó pela combinação entre quantidade e qualidade.
Um dos principais diferenciais apontados pelo setor está na genética do rebanho. Segundo dados da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro), o município possui 76.341 bovinos, o terceiro maior rebanho do estado, com forte participação de animais destinados à produção de leite.
A qualidade genética do rebanho também tem colocado Bodocó no radar de criadores de outros estados.
Expomarço movimenta negócios e valoriza a genética
Um dos principais espaços para exposição e comercialização desses animais é a Expomarço, evento que vem se consolidando como uma das vitrines do agronegócio no Araripe.
A exposição reúne bovinos, caprinos, ovinos, equinos e máquinas agrícolas e já movimenta cerca de R$ 5 milhões em negócios.
Para o produtor rural e organizador do evento, Edilson Nascimento, a participação dos criadores tem resultado em oportunidades concretas de comercialização.
“Quem levou animal fez bons negócios”, afirma.
O pecuarista Diógenes Magalhães destaca que a feira também ajudou a ampliar a conexão entre produtores e compradores.“A partir da EXPOMARÇO, abriu-se a oportunidade de atrair compradores durante todo o ano diretamente na fazenda.”
Qualidade do leite é desafio para ampliar mercados
O crescimento da produção vem acompanhado de um desafio: melhorar cada vez mais a qualidade do leite e profissionalizar a atividade.
O Presidente da Associação de Apoio ao Desenvolvimento Agropecuário de Bodocó (AADAB), Antônio Marcos Mota ressalta a importância de investimentos em gestão, assistência técnica e qualificação dos produtores. “Temos que incentivar cada vez mais a melhoria da qualidade do leite para termos acesso aos mercados mais exigentes e conseguir melhores ganhos”, afirma.
Nesse processo, parcerias com instituições como SENAR e Sebrae têm contribuído para a capacitação e o aprimoramento da produção.
Genética e manejo impulsionam produtividade
Na propriedade, os resultados também começam a aparecer. O pecuarista Emanuel Medeiros comemora a chegada de compradores de outros estados e destaca o desempenho de suas novilhas de primeira cria, que alcançam média de 22 litros de leite por dia.
O resultado evidencia o potencial de combinação entre genética, manejo e assistência técnica para elevar a produtividade dos rebanhos e ampliar a rentabilidade da atividade.
Poder público aposta em melhoramento genético
O fortalecimento da cadeia leiteira também conta com ações do poder público municipal.
Por meio da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), o município oferece assistência técnica e genética selecionada aos produtores como estratégia para contribuir com a melhoria do rebanho leiteiro.
O atendimento é realizado gratuitamente. De acordo com as informações da administração municipal, são disponibilizados sêmen, hormônios, implantes e mão de obra técnica especializada, sem custos para os produtores atendidos.
Do pasto ao desenvolvimento
Com uma produção anual superior a 61 milhões de litros, um rebanho de mais de 76 mil bovinos, dezenas de pequenos laticínios e eventos que movimentam milhões de reais, Bodocó vem reforçando uma vocação que vai além da atividade tradicional do Araripe.
A pecuária leiteira gera renda, movimenta negócios, estimula a permanência das famílias no campo e cria novas oportunidades para produtores e empreendedores.
No Sertão do Araripe, o desenvolvimento também nasce do pasto — e o leite vem ocupando um espaço cada vez maior nessa história.
Texto de Neurisvan Ramos Guerra, médico-veterinário, fiscal agropecuário e coordenador regional da Unidade Regional da Adagro no Sertão do Araripe (Ouricuri-PE) com adaptações da Equipe Pingos de Leite
Foto: Fazenda Boa Rama – Bodocó – PE