
Paulo do Carmo Martins
Economista, Mestre e Doutor em Economia Aplicada. Pesquisador da Embrapa e Professor Adjunto da Facc/UFJF
Na minha infância convivi com o Brasil da escassez. Me lembro da minha mãe reclamando da escassez de feijão, uma leguminosa que gostava de frequentar manchetes de jornais. Quem tem menos de quarenta anos nunca vivenciou a sociedade inteira discutindo…preço de feijão! No passado, vivíamos permanentemente em risco de segurança alimentar. Por que hoje não?
No início dos anos de 1970, os supermercados ainda não estavam disseminados e a referência no varejo de alimentos eram os “secos e molhados”, ou seja, os mercadinhos que tinham de tudo um pouco, do querosene ao sabonete, passando pelo açúcar e o fubá. O que viabilizou a mudança do padrão do varejo de alimentos no Brasil?
Uma propriedade rural, há cinquenta anos, buscava ser autossuficiente. Produzia-se ali tudo que a família precisava para se alimentar. O excedente era levado ao mercado, para ser transformado em dinheiro, que viabilizava a compra do combustível, do tecido, do sapato, do remédio e da “água de cheiro”. Quando as propriedades começaram a se especializar?
Feijão caro e escasso, secos e molhados e propriedades rurais autossuficientes são reminiscências que marcam o passado. Mas, é realidade ainda presente na maioria dos países latinos, africanos e asiáticos. Consumo, varejo e produção ainda continuam a ser problemas diários em boa parte do mundo. E aqui, como fizemos esta mudança estrutural?
Alysson Paolinelli foi Secretário de Agricultura de Minas Gerais, num período em que a indústria era incipiente e o Estado tinha a agricultura mais importante da Federação. Paolinelli estava na faixa dos trinta anos e foi pressionado a erradicar pés de café. Mas, ele decidiu ir contra a determinação do Governo Federal e seus técnicos. Mostrou para o governador que era preciso resistir às pressões, em função de um estudo que ele havia encomendado à Fundação Getúlio Vargas – RJ, que mostrou o impacto negativo para a economia. Foi dessa forma que Paolinelli trouxe para a formulação de políticas públicas brasileiras o ingrediente de sucesso do nosso agro: a ciência! Isso iria mudar a maneira com que produzimos e consumimos alimentos hoje no Brasil.
Paolinelli encontrou outros visionários pelo caminho, como Eliseu Alves. Ambos acreditavam que era possível superar a escassez de alimentos, pela ciência. Ambos eram homens de ciência. Paolinelli, muitos não sabem, foi Reitor da Universidade Federal de Lavras – UFLA. Já Eliseu Alves, foi extensionista e um dos idealizadores da criação da Embrapa, um de seus presidentes e um ícone para esta Empresa.
As fazendas brasileiras deixaram de ser autossuficientes porque passaram a ser orientadas pelas forças de mercado e não pela busca da sobrevivência. Passaram a mirar em fazer riqueza e não a se limitar ao sustento. A mudança do modo de pensar, contudo, não aconteceu do nada. Foi preciso, primeiro, ter pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias tropicais, para que os produtores fizessem a transformação. Ao se especializarem, as fazendas cresceram a produtividade continuamente, aumentando a disponibilidade de produtos básicos na mesa dos brasileiros.
A especialização da produção gerou impactos estruturais, pois melhorou a condição de vida do produtor brasileiro, que abandonou a enxada e caminhou para a mecanização. Isso aumentou ainda mais a produtividade e a renda auferida, estimulando-o a buscar continuamente conhecimento para permanecer crescendo. E o interesse do produtor em inovar estimulou os pesquisadores a buscarem adaptar culturas exóticas ao Brasil, como a soja, o trigo e a uva.
Mas os ganhos tornaram-se maiores fora das fazendas. E foram também além dos ganhos econômicos. Sim, a maior inclusão social feita no Brasil foi a redução contínua do custo dos alimentos da cesta básica, resultante do aumento da oferta acima do crescimento da população. Isso trouxe segurança alimentar para um conjunto imenso de brasileiros, que antes viviam o drama da incerteza na sua mesa de refeições, com salários corroído pelo preço dos alimentos. Hoje, a questão de acesso a alimentos não é mais um problema de preços. O limitante é a renda de parcela de brasileiros, ainda não incluídos ao consumo.
Em 2005 fiz visita oficial a Cuba. Circulei pelo interior, conversei com pessoas do povo e do governo. Em 2018, resolvi voltar, em viagem de turismo, com propósito claro: conhecer a vida de um cubano comum. Então, decidi ficar na casa de um deles, em Havana. Com esgoto a céu aberto, tendo de andar três quilômetros todo dia para chegar na região dos hotéis, fui captando a alma cubana. Mas isso é outra conversa…
Em Cuba, entrei nas lojas de alimentos. Voltei ao tempo. Me lembrei da época em que os abacaxis eram feios, pequenos e ácidos. Não vi variedade de folhas, de frutas, de legumes. Ali, me dei conta que o agro brasileiro viabilizou a lógica de supermercados, que exibem variedade e abundância. Afinal, sem o agro, como teríamos a exuberância exposta nos supermercados? O agro brasileiro gerou revolução social, econômica e cultural. Mudou nossa maneira de viver, no campo e na cidade.
Tive o privilégio de conhecer Paolinelli e ter prazerosas conversas de aprendizagem com ele. Era um ser simples de hábitos, sem luxo. Um ser energizado, otimista. Um ser que olhava pra frente, que queria transformar o mundo para melhor. Um ser que vivia no mundo das ideias e nos motivava a transformá-las em realidade. Neste dia 29 de junho completamos três anos de sua partida. Ah, Paolinelli, que falta você nos faz…
*Artigo publicado originalmente na Revista Balde Branco