Certificação abriu as portas do mercado nacional, fortaleceu a cadeia produtiva e já influencia municípios vizinhos do Sertão de Pernambuco.

A conquista do selo do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI) pelo abatedouro frigorífico DaTerra, de Dormentes, no Sertão pernambucano, vem transformando a cadeia da ovinocaprinocultura na região. A certificação abriu o mercado nacional para a comercialização da carne produzida no município, elevou a demanda por animais e desencadeou um movimento que produtores já chamam de “efeito Dormentes”.

Por trás da transformação vivida pela ovinocaprinocultura de Dormentes está um fator decisivo: a certificação do frigorífico no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI-POA).

Integrante do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa), coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o SISBI permite que produtos de origem animal inspecionados por serviços estaduais ou municipais sejam comercializados em todo o território nacional, desde que esses serviços comprovem equivalência aos padrões técnicos e sanitários exigidos pelo Governo Federal.

Na prática, a certificação rompe uma barreira importante para as agroindústrias. Antes, produtos inspecionados apenas pelo serviço estadual tinham sua comercialização restrita ao território pernambucano. Com a adesão ao SISBI, o frigorífico passou a atender clientes em diferentes estados brasileiros, ampliando significativamente o mercado consumidor e elevando a demanda por ovinos e caprinos produzidos na região.

Papel da ADAGRO

Em Pernambuco, cabe à Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (ADAGRO) garantir que os estabelecimentos atendam aos requisitos técnicos, sanitários e de rastreabilidade exigidos pelo Ministério da Agricultura para obtenção da equivalência ao SISBI.

O processo envolve auditorias, fiscalização permanente, controle sanitário, bem-estar animal, rastreabilidade e cumprimento das normas de inspeção previstas pela legislação federal. Somente após essa comprovação de equivalência o estabelecimento passa a integrar o sistema e pode comercializar seus produtos em todo o mercado nacional.

Foi justamente essa certificação que permitiu ao frigorífico instalado em Dormentes expandir seus negócios para além das fronteiras de Pernambuco, impulsionando a demanda por animais.

Com maior capacidade de processamento, o empreendimento ampliou significativamente a demanda por animais para abate. O aquecimento do mercado, porém, passou a enfrentar um desafio: a oferta de rebanhos não acompanha o mesmo ritmo da procura, reduzindo a disponibilidade de animais e impulsionando os preços pagos aos produtores.

A valorização já é percebida no campo. O produtor rural Lucas Lopes, do município de Ouricuri, afirma que o cenário mudou de forma expressiva. “Hoje, um carneiro vale mais que um bezerro.”

Segundo ele, animais que anteriormente eram comercializados entre R$ 350 e R$ 400 passaram a ser vendidos por valores que chegam a R$ 700, refletindo a forte valorização registrada nos últimos meses.

O secretário municipal de Agricultura, do município vizinho, Santa Filomena, Aldemir Neres, que também é produtor rural, destaca a mudança no mercado. De acordo com ele, a procura por animais aumentou e os preços praticados em Dormentes são superiores aos observados em outros municípios da região.

Atualmente, compradores chegam a pagar cerca de R$ 32,50 por quilo do animal em Dormentes, enquanto em outras localidades os valores variam entre R$ 25 e R$ 26 por quilo, consolidando o município como uma referência regional na comercialização de ovinos e caprinos.

Apesar da valorização, Neres ressalta que a comercialização exige atenção à regularidade sanitária dos rebanhos.
“Pagam um valor bem melhor, mas é preciso apresentar a GTA.”

A Guia de Trânsito Animal (GTA) é o documento obrigatório para o transporte dos animais e garante a rastreabilidade do rebanho, reunindo informações sanitárias, como vacinação e procedência, fundamentais para a segurança da cadeia produtiva.

O novo cenário também tem estimulado a regularização dos produtores junto à Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (ADAGRO). Segundo relatos do setor, aumentou a procura por cadastramento e emissão da documentação necessária para atender às exigências do mercado formal.

Dados da ADAGRO reforçam transformação do setor

Os números da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (ADAGRO) ajudam a dimensionar o impacto dessa nova dinâmica na cadeia da ovinocaprinocultura.

Segundo levantamento da Agência, após a certificação do frigorífico no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI), o trânsito total de animais na região registrou crescimento de 67,4%, indicando a ampliação da atividade comercial e da circulação de ovinos e caprinos.

Outro indicador que chama atenção é o aumento das emissões de Guias de Trânsito Animal (GTAs). O volume operacional passou de 2.182 para 3.094 GTAs, um crescimento de 41,8%, refletindo a maior movimentação formal de animais e o avanço da regularização sanitária dos produtores.

Já o volume físico de animais comercializados evoluiu de 76.204 para 127.556 cabeças, também representando um crescimento de 67,4%.

Os dados mostram ainda mudanças no perfil da produção. A participação dos animais destinados à engorda passou de 55,7% para 59,8%, indicando um avanço da atividade de terminação dos rebanhos e agregação de valor dentro da própria região.

Na avaliação da ADAGRO, Dormentes consolida-se cada vez mais como um polo regional da ovinocaprinocultura, concentrando atividades de recria, terminação e trânsito comercial de ovinos e caprinos. “A certificação demonstra que investir em sanidade, inspeção e rastreabilidade gera oportunidades para toda a cadeia produtiva. Quando um estabelecimento alcança o SISBI, ele amplia mercados, valoriza a produção regional e incentiva cada vez mais produtores a trabalharem dentro dos padrões exigidos pela defesa agropecuária. O que estamos vendo em Dormentes é um exemplo concreto de como a qualidade e a regularização podem impulsionar o desenvolvimento do setor” destaca o diretor-presidente da ADAGRO, Moshe Dayan Fernandes.

Com a valorização dos animais, o aumento da demanda e os indicadores positivos registrados pela ADAGRO, Dormentes consolida-se como uma das principais referências da ovinocaprinocultura no Nordeste. O chamado “efeito Dormentes” já ultrapassa os limites do município, impulsiona a economia do Sertão pernambucano e cria novas oportunidades para produtores que investem em manejo, regularização sanitária e qualidade dos rebanhos.

Matéria produzida pela equipe Pingos de Leite com informacões da ADAGRO e colaboração de Neurisvan Ramos Guerra – médico veterinário, fiscal agropecuário e coordenador regional da Unidade Adagro do Sertão do Araripe – Ouricuri – PE