Mudança na demanda global por matérias-primas para biocombustíveis impulsiona embarques brasileiros, que chegaram a 402 mil toneladas em 2025

O Brasil deu um salto expressivo no mercado internacional de sebo bovino na última década. Em 2015, o país ocupava a 31ª posição entre os maiores exportadores mundiais, com menos de 1 mil toneladas embarcadas por ano. Em 2025, alcançou o segundo lugar, com exportações de aproximadamente 402 mil toneladas.

Os dados, apresentados pelos economistas da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR), mostram uma mudança significativa na dinâmica desse mercado, que também beneficiou outros países produtores de carne bovina da América do Sul.

A Argentina, por exemplo, registrou embarques de 154.808 toneladas em 2025, equivalentes a US$ 125,2 milhões. O volume representa um crescimento de mais de 20 vezes em relação às 6.819 toneladas exportadas dez anos antes. Com esse avanço, o país chegou à quarta posição no ranking mundial de exportadores de sebo bovino.

Biocombustíveis mudam o mercado

Segundo a BCR, uma das principais razões para essa transformação está nas mudanças promovidas pela política energética dos Estados Unidos, que estimularam o desenvolvimento de uma indústria de diesel renovável de grande porte.

Historicamente, o sebo bovino era destinado principalmente à fabricação de sabões, cosméticos, velas e ração animal. Esses mercados apresentavam uma demanda mais estável e menor concorrência.

Esse cenário começou a mudar especialmente a partir de 2020, com a expansão da produção norte-americana de diesel renovável.

De acordo com dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA), a produção passou de aproximadamente 7,2 milhões de barris por ano no final de 2018 para 69,4 milhões de barris em 2025. A maior parte desse crescimento ocorreu entre 2022 e 2023.

Sebo ganha espaço na produção de combustível

A expansão da indústria de diesel renovável aumentou também a procura por óleos e gorduras de origem animal e vegetal utilizados como matéria-prima.

Nos Estados Unidos, o consumo de sebo bovino destinado à produção de biocombustíveis saiu de aproximadamente 75 mil toneladas por mês em 2021 e chegou a um pico próximo de 450 mil toneladas mensais no final de 2025 — crescimento superior a 720% em menos de cinco anos.

Diferentemente do biodiesel tradicional, o diesel renovável é produzido por meio de hidrotratamento e apresenta características químicas equivalentes às do diesel fóssil, podendo ser utilizado sem os mesmos limites de mistura.

Esse processo ampliou a demanda por matérias-primas e estimulou a adaptação de refinarias para a produção do combustível.

Estados Unidos passaram de exportadores a grandes compradores

A mudança também alterou o fluxo do comércio internacional.

Embora o volume global de importações de sebo bovino tenha permanecido relativamente estável, próximo de 2 milhões de toneladas por ano, a composição dos compradores mudou significativamente.

Os Estados Unidos, que tinham participação pequena nas importações mundiais no início do período analisado, passaram a responder por mais da metade das compras globais em 2025.

Ao mesmo tempo, outros mercados reduziram gradualmente suas importações, indicando uma transferência de parte do sebo que antes era destinado à produção de sabão, oleoquímicos e ração para aplicações relacionadas à produção de energia.

Brasil ganha espaço no mercado internacional

Do lado da oferta, os Estados Unidos também mudaram de posição. O país, que era o segundo maior exportador mundial de sebo bovino em 2015, caiu para a sexta colocação em 2025.

Segundo a BCR, a explicação está na decisão de direcionar uma parcela maior da produção doméstica para atender à própria indústria de combustíveis.

Esse movimento abriu espaço para fornecedores internacionais, principalmente Brasil e Argentina, que ampliaram sua participação no mercado.

Para o Brasil, o resultado representa uma nova oportunidade de agregação de valor a um subproduto da cadeia da carne bovina, ao mesmo tempo em que evidencia como as transformações na matriz energética mundial podem criar novos mercados para produtos do agro.

Fonte: Portal DBO, com base em dados da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) e da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA).
Com adaptações da equipe Pingos de Leite.