Avanço da produção é acompanhado por ganhos de produtividade, adoção de novas tecnologias e mudanças nos sistemas de produção, mas pequenos produtores ainda enfrentam forte pressão no mercado

A produção de leite no Nordeste vem passando por um processo de expansão e transformação. Entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, o volume produzido na região avançou 20,37%, passando de 525,9 milhões para 633,05 milhões de litros no trimestre.

Os dados fazem parte de análise do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste (BNB), com base principalmente na Pesquisa Trimestral do Leite (PTL), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado até o terceiro trimestre de 2025, a produção nordestina chegou a 1,86 bilhão de litros.

O resultado reforça a importância crescente da atividade leiteira para a economia regional e evidencia mudanças estruturais na forma de produzir leite no Nordeste.

Bahia e Sergipe se destacam na produção

De acordo com a análise do BNB, Bahia e Sergipe se destacaram na produção de leite no período. O levantamento também aponta avanços expressivos na produtividade das vacas em Ceará e Pernambuco, enquanto o Ceará apresentou destaque no crescimento do volume produzido.

O desempenho ocorre em um cenário no qual produtores vêm buscando elevar a eficiência dos sistemas produtivos por meio de investimentos em genética, manejo, alimentação e tecnologia.

A expansão não está restrita ao aumento do número de animais. O movimento observado indica uma busca por maior produtividade por animal, característica fundamental para a sustentabilidade econômica da atividade em uma região marcada por condições climáticas desafiadoras.

Tecnologia muda o perfil da produção

Segundo o estudo do Banco do Nordeste, a cadeia leiteira regional vem incorporando genética mais adequada, tecnologias de automação e novos sistemas de produção.

Entre as mudanças observadas está o crescimento dos sistemas de confinamento, especialmente o Compost Barn, modelo que vem ganhando espaço entre produtores que buscam maior controle do ambiente, conforto animal e eficiência produtiva. A análise cita dados da Embrapa ao abordar essa transformação dos sistemas de produção.

A adoção dessas tecnologias representa uma mudança importante para a pecuária leiteira nordestina. Em vez de depender exclusivamente da expansão do rebanho, parte dos produtores passa a investir em eficiência, genética e gestão como caminhos para aumentar a produção.

Pequenos produtores enfrentam pressão

Apesar dos números positivos, o crescimento da produção ocorre em meio a desafios importantes.

O levantamento do BNB destaca que pequenos produtores, especialmente aqueles oriundos da agricultura familiar, têm sentido fortes pressões do mercado, levando muitos deles a abandonar a atividade.

Ao mesmo tempo, médios e grandes produtores vêm buscando maior especialização e estabelecendo parcerias com empresas âncoras, movimento que tem contribuído para o crescimento da produção nos principais polos leiteiros da região.

Esse cenário revela uma das principais questões para o futuro da cadeia: como transformar o crescimento da produção em desenvolvimento sustentável para todos os elos, especialmente para os pequenos produtores?

Produção cresce, mas desafios permanecem

Outro estudo mais amplo do próprio Banco do Nordeste, publicado no Caderno Setorial ETENE, aponta que a produção de leite nordestina cresceu 14,12% no acumulado de 2025 em relação a 2024, com aumento da oferta em praticamente todos os estados.

A publicação também chama atenção para desafios como custos elevados, baixa competitividade industrial, sazonalidade da produção, baixa padronização e participação ainda reduzida de pequenas agroindústrias no mercado formal.

O estudo mostra, portanto, que o avanço da produção não elimina os gargalos históricos da cadeia. Pelo contrário: à medida que o Nordeste aumenta sua oferta de leite, tornam-se ainda mais importantes investimentos em industrialização, logística, assistência técnica, qualidade, agregação de valor e acesso a mercados.

Um novo momento para o leite nordestino

Os números mais recentes mostram que o Nordeste está ampliando sua participação na produção leiteira e, ao mesmo tempo, passando por uma mudança no perfil de seus sistemas produtivos.

O crescimento de 20,37% em apenas um ano na comparação trimestral demonstra a força da atividade. Mas os dados também deixam claro que o futuro da cadeia dependerá da capacidade de conciliar aumento de produtividade e adoção tecnológica com a permanência dos pequenos produtores no campo.

Para o Nordeste, onde a atividade leiteira possui forte presença entre agricultores familiares e pequenos e médios produtores, esse equilíbrio será determinante para transformar o crescimento da produção em desenvolvimento econômico regional e geração de renda no campo.

Fontes:

Banco do Nordeste (BNB/Etene) — análise sobre o desempenho da cadeia de lácteos no Nordeste.
IBGE — Pesquisa Trimestral do Leite (PTL).
Embrapa — referências sobre sistemas de produção e adoção do Compost Barn.